DECLARAÇÃO DE MONTREAL

Na qualidade de membros da Igreja Anglicana do Canadá, representantes de cada província e território do país, e como participantes da “Conferência sobre o Essencial”, em Montreal, 1994, juntos louvamos a Deus por sua graça salvadora e pelo companheirismo que desfrutamos com nosso Senhor e uns com os outros.

Afirmamos os seguintes pontos essenciais à fé cristã:

1. Cremos em Deus Trino

Há um só Deus, que se auto-revelou como três pessoas “de uma só substância, poder e eternidade”, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Por causa do evangelho, rejeitamos qualquer proposta para modificar ou marginalizar esses termos e afirmamos seu justo lugar na oração, na liturgia e no canto de hinos. O evangelho nos convida pelo Espírito Santo a compartilhar companheirismo eternamente com o Deus Trino, como filhos adotados na família de Deus na qual Jesus Cristo é ao mesmo tempo nosso Salvador e nosso Irmão.

Dt 6:4, Is 45:5, Mt 28:19, II Co 13:14, Gl 4 :4-6, II Ts 2:13-14, I Pd 1:2, Jd 20 :21 (Ver Artigo I dos 39 Artigos de Religião)

2. Cremos em Deus: Criador, Redentor e Santificador

O Todo-poderoso Deus Trino criou um universo que em todo sentido era bom, até a queda e a confusão produzidas pela rebelião de suas criaturas. Tendo sido introduzido o pecado, Deus em amor se propôs restaurar a ordem cósmica com:

• o chamado de um povo com o qual fez um pacto, a saber, Israel.
• a vinda de Jesus Cristo para nos redimir.
• o derramamento do Espírito Santo para nos santificar.
• o surgimento e a edificação da Igreja para lhe oferecer culto e dar testemunho no mundo.
• a segunda vinda de Cristo em glória para fazer novas todas as coisas. Através da história, o desenvolvimento do plano de Deus se caracteriza por suas obras milagrosas de poder.
Gn 1:3, Is 40:28, 65:17, Mt 6:10, At 17:24-26-28, I Co 15:28, II Co 5:19, Ef 1:11, II Tm 3:16, Hb 11:3, Ap 21:5 (Ver Artigo I)

3. Afirmamos que a Palavra se fez carne. Cremos em Jesus Cristo
• o Filho encarnado de Deus, nascido sem pecado, da virgem Maria.
• ressuscitado dos mortos corporalmente e agora reinando em glória, ainda presente com seu povo pelo Espírito Santo.
• que é a um só tempo o Jesus da história e o Cristo das Escrituras.
• é Deus conosco, o único mediador entre Deus e a humanidade, a Fonte da salvação e o Doador da vida eterna à igreja universal.

Mt 1:24,25, Mc 15:20-37, Lc 1:35, Jo 1:14, 17:20-21, At 1:9-11, 4:12, Rm 5:17, Fl 2:5-6, Cl 2:9, 1 Tm 2:5-6, Hb 1:2, 9:15 (Ver Artigos II-IV, e o Credo Niceno)

4. Cremos em Jesus Cristo, o único Salvador

O pecado humano é rebelião orgulhosa contra a autoridade de Deus. Expressa-se em nossa rejeição a viver em amor tanto com o Criador como com suas criaturas. O pecado corrompe nossa natureza e o seu resultado é a injustiça, a opressão, a desintegração tanto em nível pessoal como social. Portanto, somos culpáveis diante de Deus.

• O pecado destrói a esperança e nos conduz a um futuro sem Deus e separados de todo o bem.
• O único que pode nos salvar da culpa, da vergonha e do pecado é Jesus Cristo. Ele é o único que pode nos tirar do caminho do pecado.
• O arrependimento genuíno e a fé verdadeira nele são os únicos caminhos que nos levam à salvação.
• Por seu sacrifício propiciatório na cruz por nossos pecados, Jesus venceu os poderes das trevas e assegurou nossa redenção e justificação. Por sua ressurreição corporal garantiu a futura ressurreição e o galardão eterno de todos os crentes. Por seu dom regenerador do Espírito, restaura nossa natureza decaída e nos renova à sua imagem.
Por isso, afirmamos:
• Em cada geração, ele é o caminho, a verdade e a vida para indivíduos pecadores e o único arquiteto e construtor da comunidade humana restaurada.

Jo 14:6, At 1:9-11, 2:32-33, 4:12, Rm3:22-25, I Co 15:20-24, II Co 5:18-19, Fl 2:9-11, Cl 2:13-15, I Tm 2:5-6, I Pe 1:3-5, I Jo 4:14, 5:11-12 (Ver artigos II, IV, XI, XV, XVIII e XXXI).

5. Cremos no Espírito de vida, o Espírito Santo, “o Senhor, doador da vida”

• enviado à igreja pelo Pai e pelo Filho.
• revela a glória de Jesus Cristo.
• convence-nos do pecado.
• transforma-nos interiormente.
• leva-nos a ter fé.
• ajuda-nos a viver com justiça.
• cria a comunhão
• dá-nos poder para o serviço
• o Espírito Santo transforma nossa natureza humana e nos dá uma verdadeira idéia do céu.
A unidade em amor dos cristãos e das igrejas cheios do Espírito Santo é sinal da poderosa verdade do cristianismo.

Gn 1:2, Ex 31:2-5, Sl 51:11, Jo 3:5-6, 14:26, 15:26,16:7-11, 13,15, I Co 2 :4, 6 :19, 12:4-7, II Co 3 :18, Gl 4:4-6, 5:22-26, Ef 1:13-24, 5:18, I Ts 5:19, II Tm 3:16. (Ver Credo Niceno)

6. A autoridade da Bíblia

As Escrituras canônicas do Antigo e do Novo Testamentos são “a Palavra de Deus escrita” inspirada e autorizada, verdadeira e confiável, coerente e suficiente para a salvação. “A Palavra de Deus escrita” tem vida e é poderosa como guia divino tanto para a conduta quanto para a fé cristã.
A fé trinitária, cristocêntrica, orientada para a redenção, que se encontra na Bíblia, está definida nos credos ecumênicos históricos e nos documentos anglicanos fundamentais.

Em cada época, o Espírito Santo conduz o povo de Deus, a igreja, a submeter-se à direção das Escrituras. Para isso, emprega sempre como pontos de referência o respeito pelas sãs tradições, o uso humilde da razão humana e a oração.

A igreja não pode se constituir em juíza das Escrituras, selecionando e descartando seus ensinamentos. As Escrituras, sob a autoridade de Cristo, é que julgam a igreja para aferir sua fidelidade à verdade por ele revelada.

Dt 29:29, Is 40:8, 55:11, Mt 5 :17-18, Jo 10:35, 14:26, Rm 1:16, Ef 1:17-19, II Tm 2:15, 3:14-17, II Pe 1:20-21 (Ver Artigos VI, VIII e XX).

7. A Igreja de Deus
A sociedade sobrenatural denominada Igreja é:
• a família de Deus.
• o corpo de Cristo.
• o templo do Espírito Santo.

É a comunidade dos crentes, justificados pela fé em Cristo, incorporados à vida ressuscitada de Cristo e posta sob a autoridade das Sagradas Escrituras como a Palavra de Cristo. A igreja na terra está unida por meio de Cristo à igreja no céu na comunhão dos santos. Através do ministério da igreja, quer dizer, da Palavra e dos sacramentos do evangelho (o batismo e Santa Comunhão), Deus ministra vida em Cristo aos fiéis, capacitando-os assim à adoração, ao testemunho e ao serviço. Na vida da igreja só deve manter-se como essencial para a salvação aquilo que pode ser comprovado nas Escrituras. O não essencial não deve ser requerido de ninguém como crença, nem exigido como matéria de doutrina, disciplina ou culto.

Ef 3:10-21, 5:23-27, I Tm 3.15, Hb 12:1-2, II Tm 3.14-17 (Ver Artigos XIX, XX e XXI).

8. A Nova vida em Cristo

Deus fez os seres humanos à sua imagem divina para que pudessem gloriar-se e alegrar-se nele para sempre. Desde a queda, o pecado tem nos distanciado a todos de Deus e trazido confusão às nossas motivações e ações.

Assim como a propiciação e a justificação restauram a nossa comunhão com Deus e nos perdoam o pecado, a regeneração e a santificação também nos renovam à imagem de Cristo, para podermos vencer o pecado. É o Espírito Santo quem nos ajuda a levar uma vida disciplinada e a praticar as disciplinas cristãs; e nos transforma através das mesmas, gradativamente.

Não nos é outorgada neste mundo a ausência total do pecado, nem em nível pessoal, nem na igreja ou na sociedade. Nós, cristãos, continuaremos sendo imperfeitos “em pensamento, palavra e obra” até sermos aperfeiçoados no céu.

Gn 1:26-28, 3, Jo 3:5-6, 16:13, Rm 3:23-24, 5:12, I Co 12:4-7, II Co 3:17-18, Gl 5:22-24, Ef 2:1-5, Fl 2:13, II Pe 3:10-13 (Ver Artigos IX-XVI).

9. O Ministério na Igreja
O Espírito Santo outorga dons diferentes e distintivos a todos os cristãos, com o propósito de glorificar a Deus e edificar sua igreja na verdade e no amor. Todo cristão recebe em seu batismo o chamado a ser um ministro, independentemente de gênero, raça, idade ou condição sócio-econômica.

Cada filho de Deus deve desenvolver seus dons no serviço para o qual Deus o chamou e capacitou.
Dentro do sacerdócio de todos os crentes, honramos o ministério da Palavra e dos sacramentos, para o qual são especialmente separados os bispos, os presbíteros e os diáconos.
Rm 12:6-8, I Co 3.16, 6:11, 12:4-7, 27, II Co 5:20, Gl 2.16, Ef 4:11-13, I Tm 3:1, 12-13, 5:17, Hb 2:11, I Pe 2:4-5, 9-10 (Ver Artigos XIX e XXIII).

10. O culto da igreja
O chamado primordial da igreja, assim como o de cada cristão, é oferecer culto, em Espírito e em verdade, ao Deus da criação, da providência e da graça.

As dimensões essencial do culto são o louvor e a ação de graças por todas as coisas boas, a proclamação e a celebração da glória de Deus e de Jesus Cristo, a oração pelas necessidades humanas e pelo avanço do reino de Cristo, e o oferecimento de nós mesmos como sacrifício vivo.
Todas as formas litúrgicas, sejam informais, escritas, musicais ou cerimoniais, devem se desenvolver sob a autoridade das Escrituras. O Livro de Oração Comum provê um padrão doutrinal alicerçado na Bíblia e deve ser observado como norma para toda alternativa litúrgica. Ele não deverá ser revisado drasticamente, no clima de confusão teológica que se encontra em muitas partes da igreja contemporânea.

Nenhuma forma de culto pode exaltar a Cristo verdadeiramente nem promover uma verdadeira devoção a ele sem a presença e o poder do Espírito Santo. A oração para a cura divina, tanto espiritual como física, é um bom elemento do culto anglicano.

Jo 4:24, 16:8-15, At 1:8, 2:42-47, Rm 12:1, ICo 11:23-26, 12:7, II Co 5:18-19, Ef 5:18-20, Cl 3:16, I Ts 1:4-5, 5:19 (Ver Artigo XXXIV).

11. A prioridade do evangelismo
Evangelizar significa proclamar a Jesus Cristo como Salvador divino, Senhor e Amigo, de modo que isso seja um convite às pessoas para aproximar-se de Deus por meio dele, render-lhe culto e servi-lo, e buscar o poder do Espírito Santo para uma vida de discipulado na comunidade da Igreja.
Todo cristão é chamado a testemunhar de Cristo, como sinal de amor tanto a ele como a seu próximo. Essa tarefa, que é um tema prioritário, requer treinamento pessoal e uma constante busca de métodos apropriados para obter uma comunicação persuasiva e convincente. Nós plantamos a semente e esperamos que Deus envie o fruto.

Mat 5:13-16, 28:19-20, Jo 3:16-18, 20:21, At 2:37-39, 5:31-32, Jo1, I Co 1:23, 15:2-4, II Co.4:5, 5:20, I Pe 3:15.

12. O desafio da missão mundial
Continua sendo necessário responder à Grande Comissão de Jesus Cristo através de um compromisso com o evangelismo e com o cuidado pastoral que vá além da nossa própria cultura. A ordem de Jesus Cristo para pregar o evangelho por todo o mundo, fazer discípulos e plantar igrejas, continua valendo. A missão deve se caracterizar pelo serviço.

Cristo e sua salvação devem ser proclamados em todo lugar, com sensibilidade mas energicamente, tanto em nosso país como no exterior. A missão transcultural tem que ser apoiada com oração, generosidade, ofertas e com o envio de missionários. A missão global envolve companheirismo e intercâmbio.

Mat 28:19-20, Mc 16:15, Lc 10:2, Rm 15:23-24, I Co 2:4-5, 9:22-23, II Co 4:5, 8:1,4,7, Ef 6:19-20, Fl 2:5-7, I Ts1:6-8.

13. O desafio da ação social
O evangelho compele a igreja a ser “sal” e “luz” no mundo e a mostrar coerência em sua vida diária e nos ensinamentos bíblicos para que se ordene corretamente a vida social, econômica e política e para que haja uma boa mordomia de toda a criação.

Os cristãos devem preocupar-se com a injustiça e em executar atos de misericórdia. Ainda que não se possa identificar nenhum sistema social com o Reino de Deus, a ação social é parte integrante da nossa obediência ao evangelho.

Gn 1:26-28, Is 30:18, 58:6-10, Am 5:24, Mt 5:13-16, 22:37-40, 25:31-46, Lc 4:17-21, Jo 20:21, II Co 1:3-4, Tg 2:14-26, I Jo 4:16, Ap 1:5-6, 5:9-10 (Ver Artigo XXXVIII).

14. Os padrões da conduta sexual
Deus planejou a sexualidade humana não apenas para a procriação, mas também como manifestação alegre do amor que se expressa na fidelidade entre um homem e uma mulher, dentro do casamento. Essa é a única relação sexual que a teologia bíblica considera boa e santa.
O adultério, a fornicação e as uniões homossexuais são intimidades contrárias ao ideal e ao propósito de Deus. Os cristãos, que como todos, lutam contra as tentações homossexuais, devem buscar um modo de receber e ministrar a santidade integral que tanto necessitamos em uma humanidade sexualmente prejudicada. A homofobia e todo tipo de hipocrisia e abuso sexual são males, e contra eles os cristãos devem estar sempre vigilantes.

A igreja não pode rebaixar os padrões divinos de conduta sexual para nenhum dos seus membros; ao contrário, deve buscar como honrar a Deus apoiando essas normas tenazmente e opor-se corajosamente aos desvios das mesmas que são aceitos na sociedade.

Cada congregação local tem que buscar as formas de responder às necessidades específicas que os solteiros têm de amizade e comunhão.

Gn 1:26-28, 2:21-24, Mt 5:27-32, 19:3-12, Lc 7:36-50, Jo 8:1-11, Rm 1:21-28, 3:22-24, I Co 6:9-11, 13-16, 7:7, Ef 5:3, I Tm 1:8-11, 3:2-4, 12.

15. A família e o chamado ao celibato
Para o amor, a intimidade, o crescimento até a maturidade, a estabilidade, a mulher, o homem e as crianças, todos, recebem sua orientação através da família nuclear.

O divórcio, o abuso de menores, a violência doméstica, o estupro, a pornografia, a ausência dos pais, a dominação machista, o aborto, o concubinato e os pares homossexuais, refletem, todos, o afrouxamento do ideal da família.

Os cristãos têm que fortalecer a vida familiar através do ensino, do treinamento, do apoio efetivo e do trabalho em busca das condições sócio-políticas que defendam a família.

As família nas quais há só um dos pais e as vítimas de lares desfeitos têm necessidades específicas às quais as congregações locais devem responder com sensibilidade e misericórdia.
O celibato é também digno de respeito como um dom de Deus e uma vocação santa. Os solteiros recebem com a chaada a graça de Deus para viver em castidade.

Sl 119:9-11, Pv 22:6, Mt 5:31-32, Mc 10:6-9, I Co.6:9-11, Ef 5:21, 6:4, Cl 3:18-21, Jo 3:14-15.

16. O Novo Começo
Juntos, reafirmamos nossa confiança no cristianismo anglicano que se expressa nos padrões históricos dos credos ecumênicos, dos Trinta e Nove Artigos de Religião e do Livro de Oração Comum.

O respeito por estes padrões reforça nossa identidade e comunhão. Como pecadores, reconhecemos que freqüentemente temos sido desobedientes ao Senhor da igreja. Com a ajuda de Deus, resolvemos guardar nossa herança de fé e transmiti-la intacta, integralmente.

Esta plenitude de fé é necessária tanto para a renovação anglicana como para a proclamação eficaz das Boas Novas de Jesus Cristo, no poder do Espírito Santo.

Convidamos a todos os anglicanos (e cristãos de outras denominações) a unir-se a nós, afirmando que esta Declaração contém o essencial da fé para o discipulado e para a prática cristã em nossos dias.

Nesta Declaração, cremos estar insistindo somente naquilo que é genuinamente essencial. Quanto ao não essencial, devemos pedir a graça do Senhor para reconhecer e respeitar a liberdade que tem tradicionalmente caracterizado nossa herança anglicana.


 

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